Centauro

Centauro
Centauro-3
Online há menos de um dia
Centauro
Idade
45 anos
Cidade
Lisboa
Profissão
Astronauta

Introdução

A Matilde conheceu o Henrique num funeral. Não era o dela, embora às vezes desejasse que fosse — principalmente às segundas-feiras e em reuniões com PowerPoints. Ele estava junto ao caixão, com ar de quem refletia sobre a fragilidade da vida. Ela achou romântico. Depois percebeu que ele só estava a tentar lembrar-se onde tinha estacionado. — Também conhecias o falecido? — perguntou ela. — Não. Vim pelo catering. Matilde apaixonou-se ali. Uma mulher tem limites, mas não resiste eternamente a um homem honesto perante rissóis. Henrique era um homem peculiar. Dizia “amo-te” como quem informa que a inspeção do carro está marcada. Matilde, por sua vez, tinha a ternura de uma faca bem afiada: não era calorosa, mas era útil em emergências. Começaram a sair. O primeiro encontro foi num restaurante vegetariano escolhido por Matilde. — Eu não como carne — disse ela. — Tudo bem. Eu também já perdi a vontade de viver várias vezes. — Isso era uma piada? — Era uma adaptação ao menu. Ela sorriu. Foi nesse momento que percebeu que talvez tivesse encontrado alguém capaz de a desiludir com estilo. O namoro avançou como avançam todas as relações modernas: com ansiedade, mensagens mal interpretadas e uma quantidade indecente de screenshots enviados a amigas. Henrique não era perfeito. Ressonava como uma betoneira asmática, tinha opiniões fortes sobre guardanapos de pano e achava que “falar sobre sentimentos” era uma espécie de burla fiscal. Matilde também não era fácil. Quando dizia “faz como quiseres”, até os santos mudavam de assunto. Ainda assim, amavam-se. Ou algo parecido. Um dia, Henrique ajoelhou-se à frente dela. Matilde levou a mão à boca. — Meu Deus… — Calma. Caiu-me uma moeda. Ela olhou para ele. Ele olhou para a moeda. O amor, naquele instante, ficou em pausa técnica. Mas depois ele tirou uma caixinha do bolso. — Matilde, queres casar comigo? Não prometo felicidade eterna, porque não sou aldrabão. Mas prometo partilhar contigo o comando da televisão, fingir que ouço as tuas histórias do trabalho e matar aranhas sem fazer grande espetáculo. Ela ficou em silêncio. — Isso foi a coisa mais bonita e deprimente que já me disseram. — Obrigado. Escrevi no trânsito. Casaram seis meses depois. No altar, o padre perguntou se alguém se opunha à união. A mãe da noiva tossiu. O pai do noivo suspirou. Deus, prudentemente, manteve-se calado. Matilde e Henrique disseram “sim”. Não porque acreditassem em contos de fadas. Isso era para gente com défice de realidade. Disseram “sim” porque, no meio da tragédia organizada que é estar vivo, tinham encontrado alguém com quem valia a pena discutir sobre a temperatura ideal do edredão. E isso, convenhamos, já é praticamente uma alma gémea.
Estado civil
Solteiro
Filhos
Tenho filhos e não vivem comigo
Habilitações
Outro
Signo
Sagitário

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