O impacto da pandemia nos casais

Pandemia e os casais

O impacto da pandemia nos casais: 3 psicólogos explicam tudo

21 de Julho de 2020

Quando a pandemia se instalou nas nossas vidas e todos tivemos de ficar confinados às nossas casas, muito se especulou sobre o futuro dos casais que partilham o mesmo espaço. Quisemos saber quanto os relacionamentos das pessoas sofreram durante uma fase em que se viram obrigadas a estar juntas todos os dias. Foram só desafios ou as relações também beneficiaram da proximidade? Para recolhermos informação sobre os desafios das relações durante o confinamento, estivemos à conversa com quem se ocupa de questões psicológicas: o psicólogo clínico e terapeuta familiar e de casal, Tiago Sá Balão, a professora doutora, Filipa Machado Vaz, e a psicóloga Sofia Pais. Numa coisa todos eles concordam e para a qual gostaríamos remeter a vossa atenção - não existem receitas universais para ultrapassar os problemas porque cada casal é único.

Os factores externos à relação foram os mais causadores de conflitos entre os casais

E provocaram um maior impacto em cada indivíduo. Não apenas por passarem mais tempo fechados em casa, mas por toda a alteração de rotinas que se deu quase do dia para a noite. Ficar em casa acabou por significar trabalho acrescido com a preparação de mais refeições; as tarefas rotineiras e fáceis como ir às compras tornaram-se extenuantes, demoradas e envolvendo cuidados; e gerir as tarefas domésticas, a par com o teletrabalho, intercalando com o apoio aos filhos veio adicionar à pressão que o confinamento já implicava por si só. Tiago Sá Balão explica que “somos seres que procuramos estabilidade e, por isso, sempre que existem mudanças, estas geram impacto, quer no indivíduo, quer no casal.” E acrescenta que “a mudança de rotinas, requer uma adaptação de ambas as partes e é essa adaptação que nem sempre é fácil.”

Se as mudanças deste novo (a)normal (porque de normal não tem nada) nos afetam a todos, Sofia Pais revela-nos que “foram as mulheres que mais buscaram apoio psicológico pois o burnout parental ainda é muito sentido por elas, através do acomular de papéis sociais enquanto mães, profissionais, mulheres, e, algumas vezes, mães dos maridos”. Apesar de cada vez mais homens procurarem ajuda, as expectativas da sociedade para com a mulher continuam altas, exigindo-lhes mais de si em casa e com os filhos. Se lhes retirarmos o precioso apoio familiar, como o dos avós, que iam buscar os netos à escola, davam-lhes o jantar e entretiam-nos durante algumas horas, agora a vida dos pais, no geral, e da mulher, em particular está completamente sobrecarregada e sem ajuda.

Desencobrir o que tentámos esquecer

A vida antes da Covid-19 era acelerada, cheia compromissos, reuniões de trabalho, jantares com amigos, cinema, concertos e outras tantas distrações que, muitas vezes, serviam como um pano para encobrir problemas que já existiam mas que tínhamos receio de encarar. Era feito um adiamento indefinido da fragilidade com esperança de que esta desaparecesse. Com o mundo parado e as actividades suspensas, não nos restou alternativa a olhar para dentro, destapar os nossos próprios problemas e a enfrentá-los.

O mesmo se pode dizer sobre o outro, o nosso companheiro, e sobre essa terceira entidade que é a relação. Como Filipa Machado Vaz nos explicou, “os casais que já tinham problemas continuaram a tê-los ou pioraram a sua situação. Se a base já se encontrava fragilizada ou instável por problemas individuais, como tendências depressivas, as bases desmoronam. Os casais que já eram flexíveis e tinham melhor entendimento foram menos afetados. ” Todos os profissionais mencionaram que este é um processo que acontece também noutras alturas em que somos obrigados a parar, como o caso das época de férias.

“Estratégias de Regulação Emocional”

Há situações criadas pela pandemia, e externas à relação, que dificilmente obterão resolução imediata ou simples como casos de desemprego, precariedade e incerteza financeira. Contudo, no que toca a um relacionamento saudável entre as partes, há muito que pode ser trabalhado - sim, porque dá muito trabalho. Tolerância foi a palavra mais ouvida nas conversas com os psicólogos e não será de estranhar.

O confinamento obrigou-nos a ver de perto e a toda a hora as imperfeições dos nossos parceiros quando antes podíamos virar costas e não lidar com elas. Uma vez que toleremos e aceitemos as diferenças do nosso parceiro, haverá muito menos conflito na vida a dois. E quando o conflito surgir (porque surgirá sempre), deveremos estar atentos à comunicação verbal e não verbal do outro e, principalmente, à nossa.

Quem nunca se chateou por um qualquer motivo mas acabou em pior estado devido à maneira como falaram connosco? É muito fácil escalar problemas com uma comunicação ineficaz portanto, há que escolher bem as palavras, o tom e os gestos. Tiago Sá Balão aconselha os casais a praticarem o altruísmo, a resiliência, a proatividade e a perseverança. “Gosto muito desta palavra porque junta persistência e esperança. É algo muito difícil de aplicar na sociedade onde vivemos porque, hoje em dia, tudo é descartável e preferimos passar ao próximo relacionamento do que trabalhar no que estamos a viver.”
Tudo faz parte de um plano de estratégias que os casais foram aconselhados a aplicar, de acordo com o diagnóstico de cada pessoa e a situação específica de cada casal.

Filipa Machado Vaz esclarece que são apelidadas de estratégias de regulação emocional. Estas estratégias devem “valorizar a partilha emocional de cada um; certificar que as necessidades de ambos são tidas em consideração; que os problemas são resolvidos em conjunto e não por imposição de uma das partes. O foco deve estar em cuidar da relação e não do próprio.”

Já Sofia Pais recorda que, nesta fase, os casais devem reinventar-se e adoptar estratégias para lidar com estas novas rotinas de isolamento. “Por exemplo, alguns pais estipularam períodos de tempo em que um mantinha-se focado no teletrabalho enquanto o outro prestava auxílio aos filhos e depois trocavam. Dedicaram tempo para estarem um com o outro enquanto casal e tempo para estarem sozinhos.”

Passar tempo juntos como não passavam há muito

Quando pensávamos que o confinamento trouxe apenas problemas e dificuldades para a vida dos casais e das famílias portuguesas, eis que cada psicólogo traz para a mesa vários aspectos positivos verificados nos seus casos durante a quarentena. Muitos pais ficaram contentes por passar mais tempo com os filhos, poderem acompanhar de perto o seu crescimento, assistirem às suas aulas e brincarem mais com eles.

Houve, pessoas que tiveram melhorias significativas nas suas relações por passarem mais tempo um com o outro e descobriram coisas, não só sobre si, mas enquanto casal. Reavivaram-se paixões antigas que não tinham tempo para receber a devida atenção como cozinhar, escrever ou fazer trabalhos manuais, e descobriram novos conjuntos de competências. E para casais que estão juntos há algum tempo, reavivar o interesse e a descoberta pelo outro pode melhorar e dar nova vida ao relacionamento.

O trabalho dos psicólogos veio a revelar-se fundamental para muitos casais nesta fase. É importante lembrar que os profissionais da área estão à disposição e possuem a formação e as ferramentas necessárias para ajudá-lo, de acordo com a situação de cada um. A saúde mental não deve ser descurada e o apoio psicológico profissional não deverá ser substituído por informação geral.



 
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