Introdução
A Matilde conheceu o Henrique num funeral.
Não era o dela, embora às vezes desejasse que fosse — principalmente às segundas-feiras e em reuniões com PowerPoints.
Ele estava junto ao caixão, com ar de quem refletia sobre a fragilidade da vida. Ela achou romântico. Depois percebeu que ele só estava a tentar lembrar-se onde tinha estacionado.
— Também conhecias o falecido? — perguntou ela.
— Não. Vim pelo catering.
Matilde apaixonou-se ali. Uma mulher tem limites, mas não resiste eternamente a um homem honesto perante rissóis.
Henrique era um homem peculiar. Dizia “amo-te” como quem informa que a inspeção do carro está marcada. Matilde, por sua vez, tinha a ternura de uma faca bem afiada: não era calorosa, mas era útil em emergências.
Começaram a sair. O primeiro encontro foi num restaurante vegetariano escolhido por Matilde.
— Eu não como carne — disse ela.
— Tudo bem. Eu também já perdi a vontade de viver várias vezes.
— Isso era uma piada?
— Era uma adaptação ao menu.
Ela sorriu. Foi nesse momento que percebeu que talvez tivesse encontrado alguém capaz de a desiludir com estilo.
O namoro avançou como avançam todas as relações modernas: com ansiedade, mensagens mal interpretadas e uma quantidade indecente de screenshots enviados a amigas.
Henrique não era perfeito. Ressonava como uma betoneira asmática, tinha opiniões fortes sobre guardanapos de pano e achava que “falar sobre sentimentos” era uma espécie de burla fiscal.
Matilde também não era fácil. Quando dizia “faz como quiseres”, até os santos mudavam de assunto.
Ainda assim, amavam-se.
Ou algo parecido.
Um dia, Henrique ajoelhou-se à frente dela. Matilde levou a mão à boca.
— Meu Deus…
— Calma. Caiu-me uma moeda.
Ela olhou para ele.
Ele olhou para a moeda.
O amor, naquele instante, ficou em pausa técnica.
Mas depois ele tirou uma caixinha do bolso.
— Matilde, queres casar comigo? Não prometo felicidade eterna, porque não sou aldrabão. Mas prometo partilhar contigo o comando da televisão, fingir que ouço as tuas histórias do trabalho e matar aranhas sem fazer grande espetáculo.
Ela ficou em silêncio.
— Isso foi a coisa mais bonita e deprimente que já me disseram.
— Obrigado. Escrevi no trânsito.
Casaram seis meses depois.
No altar, o padre perguntou se alguém se opunha à união. A mãe da noiva tossiu. O pai do noivo suspirou. Deus, prudentemente, manteve-se calado.
Matilde e Henrique disseram “sim”.
Não porque acreditassem em contos de fadas. Isso era para gente com défice de realidade.
Disseram “sim” porque, no meio da tragédia organizada que é estar vivo, tinham encontrado alguém com quem valia a pena discutir sobre a temperatura ideal do edredão.
E isso, convenhamos, já é praticamente uma alma gémea.
Habilitações
Ensino universitário
Bebidas alcoólicas
Bebo socialmente